O que mais me chama a atenção é a necessidade que os anciãos têm de uma conversa. Isso me fascina de uma maneira interessante.
Tem um certo senhor que todo dia fica na mesma parada que eu. Fico normalmente bem longe, porque os banquinhos embaixo da cobertura onde ele senta são cobiçados. Mas, quando fico impaciente esperando o ônibus, fico em pé mesmo, na frente dos banquinhos. Aí então me concentro no comportamento do senhor. Sempre desesperado atrás de uma conversa qualquer, solta comentários aleatórios para ver se é retribuído por algum dos aperriados que esperam a condução passar. De vez em quando aparece uma ou outra pessoa disposta a jogar conversa fora com o velhinho, que nessas ocasiões conta orgulhoso suas aventuras, suas longas caminhadas do cemitério até o estádio, depois até a prefeitura..
Em certos momentos, explode uma imensa vontade de sentar-me com ele e deixá-lo contar todas as suas histórias, por onde andam seus filhos, os seus vizinhos que morreram e dar um dia de orgulho ao senhor, e é sempre nesse exato momento que vejo o meu ônibus dobrando a esquina e vindo ao meu encontro, e tenho que deixar o velhinho soltando palavras ao vento.
